O Feitiço Que Uniu Nossos Destinos

O Feitiço Que Uniu Nossos Destinos

Capítulo 1 — O Ritual

I. Antes do Salão

Kaen acordou antes do amanhecer, como fazia todos os dias desde que aprendera a andar sozinho pelos corredores gelados do palácio. Não porque gostasse de madrugar — mas porque o silêncio daquela hora, antes de os criados começarem a circular e os conselheiros a sussurrar pelos corredores, era o único momento do dia que lhe pertencia inteiramente.

Ficou algum tempo parado junto à janela do próprio quarto, observando a neve cair sobre os jardins de gelo esculpido. Lá fora, as estátuas de cristal — feitas por artesãos que já haviam morrido gerações atrás — brilhavam sob a pouca luz que insistia em atravessar as nuvens espessas do Norte. Era um espetáculo que ele via todos os dias e que, ainda assim, nunca deixava de observar por inteiro, como se cada manhã fosse ligeiramente diferente da anterior.

Naquele dia, porém, era diferente de verdade.

Bateram à porta. Era Sana, a mais antiga das aias do palácio, a única pessoa que ainda ousava entrar sem esperar resposta.

— Já está de pé, Alteza — disse ela, não como pergunta. — Bom. Vamos precisar de tempo para os preparativos.

— Quanto tempo, exatamente, leva para se preparar para uma maldição? — perguntou Kaen, sem se virar da janela.

Sana não respondeu de imediato. Havia crescido junto dele o bastante para saber quando uma pergunta merecia resposta e quando merecia apenas silêncio companheiro.

— Um feitiço de união não é uma maldição, Alteza.

— Diga isso à profecia.

— A profecia fala de amor, não de vínculo mágico. São coisas diferentes.

Kaen finalmente se virou. Sana já havia estendido sobre a cama o manto cerimonial — branco, bordado em prata, pesado o bastante para lembrar a cada movimento que aquele não era um dia comum.

— E se não forem tão diferentes assim? — perguntou ele, baixo, quase para si mesmo.

Sana não teve resposta para isso. Apenas ajudou-o a vestir o manto, em silêncio, como fazia desde que ele era pequeno demais para amarrar os próprios cadarços.


Do outro lado do continente, onde a neve nunca caía e o ar cheirava a terra quente e frutas maduras, Ryo enfrentava um problema bem mais prático: sua trança recusava-se a cooperar.

— Fica quieto — resmungou sua irmã mais nova, Aiko, puxando com força uma mecha rebelde de cabelo castanho-avermelhado. — Não pode chegar lá parecendo que acabou de sair de uma briga.

— Eu não me importaria de sair de uma briga agora, sinceramente. Pareceria menos assustador que isso.

— Você? Assustado? — Aiko riu, sem parar de trançar. — O herdeiro do Sul, que subiu na árvore mais alta do palácio aos sete anos só para provar que conseguia, está com medo de um feitiço?

— Não é medo de feitiço — disse Ryo, olhando para as próprias mãos. — É medo de… não sei. De ficar preso a alguém que provavelmente vai me odiar assim que me conhecer.

Aiko parou de trançar por um instante.

— Ou de alguém que talvez não odeie.

Ryo não respondeu. Levantou-se, ajustou o colarinho vermelho e dourado da roupa cerimonial, e encarou o espelho como quem encara um adversário desconhecido.

— De qualquer forma — disse, forçando um sorriso de volta ao rosto —, já é tarde demais para recuar. Os carros já devem estar prontos.

Ele não disse à irmã que, na noite anterior, mal tinha dormido. Não por medo da maldição em si — mas pela sensação estranha, incômoda, de que sua vida inteira estava prestes a ser decidida por um ritual que ele não tinha escolhido, ao lado de um príncipe que ele nunca tinha visto de perto.


II. O Salão

A sala do trono do Reino do Norte não conhecia calor. Nem mesmo naquele dia, quando duzentas pessoas se apertavam entre as colunas de gelo esculpido, respirando juntas o mesmo ar tenso, o salão insistia em manter sua temperatura de sempre — fria, precisa, inabalável. Como o príncipe que ali estava de pé.

Kaen sentia o peso do manto de cerimônia sobre os ombros como sentia tudo: em silêncio. A prata bordada na gola arranhava de leve o pescoço. Ele não se mexia. Não era permitido se mexer, não quando os olhos de dois reinos inteiros estavam voltados para ele — nobres do Norte de um lado, vestidos em tons gélidos de azul e branco; delegação do Sul do outro, um mar de vermelho e dourado que parecia, só de existir ali, desafiar a própria arquitetura do salão.

Ele conhecia cada rosto entre os nobres do Norte. Sabia quem torcia secretamente pelo fracasso do tratado, quem via ali uma oportunidade de comércio, quem apenas queria ver o espetáculo de perto. O que não conhecia — o que ninguém no Norte conhecia de verdade — era o rosto do herdeiro que em minutos teria seu destino atado ao dele para sempre.

Do outro lado do salão, atravessando o tapete vermelho que alguém — provavelmente por ironia — escolhera para aquele dia de paz gelada, vinha o motivo de toda aquela cerimônia.

Ryo caminhava como se o salão lhe pertencesse.

Não tinha o mesmo cuidado de Kaen com a postura. Andava com passos largos, o queixo erguido, um sorriso fácil demais para a solenidade do momento — o tipo de sorriso que Kaen reconheceu, quase de imediato, como uma armadura tão eficiente quanto qualquer couraça de gelo que ele próprio pudesse vestir. Os cabelos castanho-avermelhados escapavam da trança meio cerimonial que Aiko decerto passara a manhã tentando domar. Vestia vermelho e dourado, cores que pareciam brigar abertamente com o branco e prata do salão — e talvez fosse exatamente essa a intenção do estilista do Sul, ou talvez fosse só o jeito de Ryo existir no mundo: sem pedir licença.

Os dois pararam frente a frente, no centro exato do círculo de runas gravado no chão havia gerações, esperando por aquele momento.

— Assim que o feitiço for lançado — disse o Grande Conselheiro, um homem idoso cuja voz ecoava mais pela sala do que qualquer coisa dita ali — não haverá retorno. Os destinos de Sua Alteza do Norte e Sua Alteza do Sul estarão selados um ao outro. O que um sentir, o outro sentirá. Onde um sofrer, o outro sofrerá também. Esta é a promessa que sela a paz entre nossos reinos, depois de trezentos anos de guerra.

— E é assim que vocês pretendem garantir paz — murmurou Ryo, baixo o suficiente para não ser ouvido pelo Conselho, mas alto o bastante para chegar aos ouvidos de Kaen. — Nos amaldiçoando a sentir a dor um do outro.

Kaen não respondeu. Manteve o olhar fixo à frente, no ponto exato onde o teto de gelo se erguia em espirais, longe do rosto do herdeiro do Sul. Era mais fácil não olhar. Olhar significava admitir que aquilo era real, que em minutos sua vida estaria ligada à de um estranho por uma força que nem os melhores magos do Norte compreendiam por completo.

— Vossas Altezas, deem as mãos.

Foi a primeira vez que Kaen olhou diretamente para ele.

Os olhos de Ryo eram da cor de âmbar sob o sol — algo que Kaen nunca tinha visto antes, porque no Norte o sol raramente atravessava as nuvens de neve com força suficiente para iluminar algo daquela forma. Havia um brilho ali, desafiador, quase divertido, como se mesmo diante de uma maldição milenar, Ryo insistisse em não levar a vida tão a sério quanto deveria. Mas, por trás do brilho, Kaen notou algo mais — um traço quase imperceptível de nervosismo, escondido tão bem que provavelmente ninguém mais no salão conseguiria enxergar.

— Não vai me morder, vai? — perguntou Ryo, estendendo a mão. — Ouvi dizer que os príncipes do Norte são traiçoeiros.

— Só com quem merece.

Foi a primeira coisa que Kaen disse a ele. E, pelo leve arquear de sobrancelha de Ryo, não era a resposta que ele esperava.

As mãos se tocaram.

O mundo não desabou, como Kaen meio que esperava, no fundo, que acontecesse. Não houve trovão, nem luz cegante, nem nada do que as lendas prometiam. Houve apenas um calor — impossível, absurdo — subindo pelo braço de Kaen a partir do ponto onde a pele de Ryo tocava a sua. Um calor que não deveria existir ali, no salão mais frio do reino mais frio do continente. Era como segurar uma brasa que não queimava, só aquecia, devagar, um caminho quente subindo do pulso até o peito.

E, ao mesmo tempo, viu — não com os olhos, mas com algo mais fundo, mais estranho — um frio percorrendo o braço de Ryo. Sentiu, por um segundo impossível de explicar, o que era ser Ryo sentindo o frio de Kaen pela primeira vez: um arrepio necessário, quase bem-vindo depois de uma vida inteira sob o calor do Sul.

O Grande Conselheiro ergueu as mãos, e as runas no chão se acenderam em um azul tão intenso que a sala inteira pareceu prender a respiração. A luz subiu pelas pernas dos dois, envolveu as mãos entrelaçadas, e por um instante — só um instante — Kaen teve a sensação nítida de que não havia mais fronteira entre onde ele terminava e onde Ryo começava.

— Está feito — anunciou o Conselheiro, a voz tremendo de alívio genuíno. — Que o gelo e o fogo aprendam, enfim, a coexistir.

Aplausos. Vivas. Alguém, em algum canto do salão, chorou de alívio — talvez alguém que tivesse perdido família na última guerra, talvez alguém que só quisesse acreditar que paz era possível depois de tanto tempo.

Kaen soltou a mão de Ryo assim que o protocolo permitiu.

Mas o calor não foi embora.


III. O Jardim de Gelo

O banquete que se seguiu foi, para Kaen, um exercício de resistência. Cada conversa, cada brinde, cada nobre querendo cumprimentá-lo pessoalmente pelo “grande dia” — tudo isso ele suportou com a paciência treinada de quem crescera sabendo que sorrisos falsos eram, muitas vezes, mais importantes que sentimentos verdadeiros.

Foi só quando conseguiu se esgueirar para fora do salão principal, sob o pretexto de “necessitar de ar”, que finalmente permitiu que os ombros relaxassem.

Encontrou refúgio na varanda que dava para o Jardim de Gelo — um dos poucos lugares do palácio onde conseguia respirar sem sentir o peso de mil expectativas sobre os ombros. As flores ali eram esculpidas em gelo eterno, brilhando sob a lua como se fossem feitas de vidro fino, um dos únicos exageros estéticos que o Norte se permitia.

Não esperava companhia. Muito menos esperava que a companhia fosse Ryo, já apoiado na balaustrada, olhando para o jardim com uma expressão que Kaen ainda não sabia decifrar.

— Achei que ia ficar remoendo isso sozinho no quarto — disse Ryo, sem se virar de imediato. — Mas parece que subestimei sua capacidade de fugir da própria festa.

— Não é uma festa. É um tratado.

— Chame como quiser. Ainda tem comida boa lá dentro que você está perdendo.

— Como encontrou este lugar?

— Segui o frio — respondeu Ryo, finalmente se virando para olhá-lo. Havia um meio sorriso no rosto dele, mas os olhos pareciam mais cansados do que no salão. — Estranhamente, ficou mais fácil sentir a sua direção depois daquele ritual. Vou assumir que é efeito colateral da maldição.

Kaen não respondeu de imediato. Aproximou-se da balaustrada, mantendo distância suficiente para que os ombros não se tocassem, mas perto o bastante para sentir — ali estava de novo, aquele calor estranho, mais brando agora, como uma lareira distante ardendo em algum cômodo vizinho.

— Você sente isso? — perguntou, finalmente, sem se virar para olhar Ryo.

— Sinto o quê?

— O calor. Desde o ritual.

Ryo ficou em silêncio por um instante — o mais longo silêncio que Kaen tinha visto vindo dele até então.

— Achei que fosse só coisa da minha cabeça — admitiu, a voz mais baixa, sem a provocação de antes. — Um frio. Bem no meio do peito. Não vai embora. Achei que fosse só… nervosismo. Ou o clima horrível do seu reino.

— O clima do meu reino é perfeito.

— Para pinguins, talvez.

Apesar de si mesmo, algo no canto da boca de Kaen quase se moveu. Quase.

— Então já começou — disse ele, voltando ao assunto.

— O quê?

— O vínculo.

Ryo segurou o olhar dele por mais tempo do que qualquer estranho tinha o direito de fazer. Havia algo ali — não mais a provocação fácil de antes, mas uma pergunta genuína, quase vulnerável, escondida atrás dos olhos cor de âmbar.

— E isso te assusta? — perguntou Ryo.

Kaen pensou em mentir. Pensou em dizer que nada o assustava, que era príncipe do Norte, treinado desde criança para não sentir medo diante de nada — que aquele treinamento era, na verdade, a única coisa que o sustentava desde que a profecia fora revelada a ele, ainda criança, numa sala fechada com apenas os conselheiros mais antigos como testemunhas: este príncipe não pode amar, ou o gelo que protege o reino se quebrará para sempre.

Mas o calor ainda estava ali, subindo pelo peito, e pela primeira vez em muito tempo, Kaen não tinha certeza de qual resposta era a verdadeira.

— Deveria assustar você também — disse, em vez de responder diretamente.

— Talvez devesse — concordou Ryo, com um meio sorriso que não chegava a ser o de sempre, mais suave, mais real. — Mas, sinceramente, gelinho… acho que estou mais curioso do que assustado.

— Gelinho?

— Vai ter que se acostumar. Não tenho talento para formalidade. Perguntem à minha irmã.

Kaen encarou-o por um instante, tentando entender se deveria se ofender com a informalidade repentina, ou se — pior — deveria admitir que não se importava tanto quanto imaginava que se importaria.

— No Norte, ninguém se dirige a mim assim.

— Bom — disse Ryo, aproximando-se um passo, o suficiente para que Kaen sentisse o calor que vinha diretamente dele, e não apenas do vínculo mágico entre os dois. — Eu não sou do Norte.

Por um instante, nenhum dos dois falou. O vento gelado passava pelas flores de cristal, fazendo-as tilintar suavemente, um som que Kaen conhecia bem, mas que naquela noite parecia mais alto, mais presente, como se o próprio jardim estivesse testemunhando algo que nem os dois príncipes compreendiam ainda por completo.

— Vamos ter que descobrir como conviver com isso — disse Kaen, finalmente, a voz mais baixa do que pretendia.

— O vínculo?

— Isso. E… o resto.

Ryo pareceu entender o peso por trás daquelas palavras simples — o resto sendo tudo que nenhum dos dois estava pronto para nomear ainda: a proximidade estranha e imediata, a curiosidade que nenhum devia sentir por um estranho, o calor que teimava em não ir embora.

— Temos tempo — disse Ryo, e havia algo gentil na forma como disse isso, quase um alívio. — Ou pelo menos, é o que dizem sobre destinos amaldiçoados, não? Que a gente sempre acaba tendo tempo demais para descobrir o que realmente importa.

— Isso soou como algo tirado de um livro ruim.

— Foi tirado de um livro ruim. Minha irmã lê demais.

Dessa vez, Kaen quase sorriu de verdade.

E, pela primeira vez naquela noite, sentiu — através do vínculo, ou talvez apenas por ser humano o bastante para reconhecer — que não estava sozinho naquela curiosidade.

O gelo, afinal, nunca tinha sentido tanta vontade de derreter.


Continua…

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