Capítulo 3 — Korhaven

O Feitiço Que Uniu Nossos Destinos Cap 3

Capítulo 3 — Korhaven

I. A Fronteira

O segundo dia de viagem trouxe uma paisagem que Kaen conhecia apenas de relatos e mapas: a linha invisível onde o gelo perpétuo do Norte cedia, aos poucos, lugar a uma terra mais mansa, onde a neve ainda caía, mas já não cobria tudo com aquela brancura absoluta e implacável do reino que ele conhecia desde o berço.

— É estranho — comentou Ryo, os olhos percorrendo o horizonte com genuína curiosidade —, ver neve e grama ao mesmo tempo. No Sul, quando chega o frio, ele varre tudo. Aqui parece que os dois climas fizeram um acordo.

— Talvez seja um bom presságio — disse Kaen, e a própria frase o pegou de surpresa. Não era do seu feitio falar em presságios, muito menos otimistas.

Ryo notou o comentário, claro. Sempre notava.

— O gelinho está otimista hoje. Isso é novo.

— Não me chame assim na frente dos guardas.

— Por quê? Vai estragar sua reputação de témpano ambulante?

Kaen suspirou — um som que, vindo dele, equivalia a uma gargalhada em qualquer outra pessoa. Os guardas que cavalgavam alguns metros atrás, tanto do Norte quanto do Sul, trocaram olhares discretos entre si. Havia algo estranho, mas não desagradável, em testemunhar o herdeiro mais frio da história recente do Norte sendo, aos poucos, decifrado por aquele estranho vindo do Sul.

Korhaven apareceu no horizonte pouco antes do anoitecer: um punhado de casas de pedra e madeira, telhados cobertos de neve leve, fumaça subindo das chaminés em colunas retas contra o céu já escurecendo. Não era grande — talvez trezentas almas vivessem ali, entre pastores, caçadores e comerciantes que faziam da fronteira seu ganha-pão, vendendo aos dois reinos o que cada um não produzia sozinho.

O que chamou a atenção de Kaen, primeiro, não foi o vilarejo em si, mas o silêncio dele.

Não o silêncio pacífico de uma noite comum. Um silêncio tenso, vigilante — o tipo de quietude que só existe quando um lugar inteiro está com medo.


II. O Problema

Foram recebidos pelo ancião do vilarejo, um homem curvado pelo tempo, mas com olhos ainda alertas, que os conduziu à pequena casa de reuniões no centro de Korhaven, onde uma dúzia de moradores já esperava, rostos tensos à luz de tochas.

— Vossas Altezas nos honram com sua presença — disse o ancião, curvando-se com respeito, mas sem o exagero protocolar da corte. Ali, aparentemente, a formalidade cedia espaço à urgência real. — Precisamos falar sobre o que tem acontecido nas montanhas.

— Contem-nos tudo — disse Kaen, e havia autoridade genuína em sua voz, o tipo que vinha não de treinamento cerimonial, mas de responsabilidade real por aquelas pessoas.

Uma mulher mais jovem, talvez uma caçadora a julgar pelo arco às costas, foi quem falou primeiro.

— Há duas semanas, criaturas de gelo começaram a descer das montanhas Grynn. No começo, achamos que fosse só um bando maior de lobos-de-gelo, migrando cedo por causa do inverno rigoroso. Mas então perdemos três pastores, e o que atacou o rebanho de ovelhas de Harn não deixou vestígios de lobo nenhum. Deixou vestígios de… — ela hesitou, procurando as palavras certas — algo que não deveria existir. Garras de gelo puro, do tamanho de espadas. Pegadas que derretiam e voltavam a congelar sozinhas.

Kaen sentiu um arrepio que nada tinha a ver com o clima.

— Um Ur-gelo — murmurou ele, mais para si mesmo do que para os outros.

— O que é isso? — perguntou Ryo, a curiosidade sobrepondo, momentaneamente, a preocupação.

— Uma criatura antiga — explicou Kaen, os olhos fixos no ancião, buscando confirmação. — Feita de gelo primordial, de antes mesmo dos primeiros reis do Norte. Achávamos que estavam extintas há séculos. Se realmente existe uma nas montanhas Grynn…

— Isso é ruim? — completou Ryo, lendo a expressão de Kaen com facilidade cada vez maior.

— Isso é muito ruim.

O ancião assentiu, grave.

— É por isso que pedimos ajuda ao palácio, Alteza. Nossos caçadores mais experientes já tentaram rastrear a criatura duas vezes. Nenhum voltou com sucesso. Um deles nem voltou de todo.

Um silêncio pesado tomou conta da sala. Kaen sentiu, através do vínculo, algo mudar em Ryo — não medo exatamente, mas uma seriedade nova, um peso que substituía, ao menos por ora, a leveza costumeira.

— Iremos até as montanhas amanhã, ao amanhecer — disse Kaen, decidido. — Precisaremos de um guia até o último ponto onde a criatura foi avistada.

— Eu vou com vocês — disse a caçadora imediatamente. — Meu nome é Fen. Perdi meu irmão para aquela coisa. Quero ajudar a acabar com ela.

Kaen hesitou. Levar um civil para o confronto com um Ur-gelo era arriscado. Mas olhou para os olhos determinados de Fen e reconheceu ali algo que respeitava profundamente: a disposição de enfrentar o próprio medo por algo maior.

— Muito bem. Mas seguirá nossas instruções à risca.

— Combinado, Alteza.


III. A Noite em Korhaven

Foram hospedados na maior casa do vilarejo — que, mesmo assim, era modesta o suficiente para fazer Kaen perceber, mais uma vez, o quanto vivia isolado da vida real de seu próprio povo dentro dos muros do palácio.

Jantaram uma sopa simples, de raízes e carne salgada, sentados à mesa de madeira rústica junto ao ancião e alguns moradores mais próximos. Ryo, para surpresa de ninguém além do próprio Kaen, encaixou-se com facilidade natural naquele ambiente — rindo das histórias dos caçadores, elogiando sinceramente a comida, perguntando sobre a vida de cada um com um interesse que não parecia protocolar.

— Você é bom nisso — comentou Kaen, mais tarde, quando finalmente ficaram a sós no pequeno quarto que lhes fora reservado — modesto, com duas camas estreitas separadas por uma cômoda igualmente simples.

— Bom em quê?

— Em fazer as pessoas se sentirem à vontade.

Ryo deu de ombros, sentando-se na beirada de sua cama, tirando as botas com um suspiro cansado.

— Cresci sabendo que um dia teria que governar pessoas de verdade, não só nobres em salões refinados. Meu pai sempre disse que rei que esquece o gosto da sopa do povo esquece também o motivo de existir.

— Palavras sábias.

— Meu pai tem seus momentos.

Kaen se sentou em sua própria cama, os olhos fixos na pequena janela onde a neve continuava a cair, mais leve ali do que no Norte, quase gentil.

— No Norte, ensinam-me que governar é proteger. Manter distância, manter controle, para que nada abale o equilíbrio.

— E o que você acha disso?

A pergunta pegou Kaen de surpresa — não pela primeira vez desde que conhecera Ryo.

— Acho… — começou, devagar, escolhendo as palavras com o cuidado de sempre — que talvez proteger e se aproximar não sejam coisas tão opostas quanto me ensinaram a acreditar.

Ryo sorriu — não o sorriso provocador de sempre, mas algo mais quieto, mais genuíno.

— Isso é o mais parecido com uma declaração filosófica que já ouvi de você.

— Não se acostume.

— Tarde demais.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era, na verdade, o tipo de silêncio que só existe entre pessoas que começam, aos poucos, a se sentir seguras uma com a outra — algo que nem Kaen nem Ryo teriam admitido em voz alta, mas que ambos sentiam, através do vínculo e além dele, crescendo devagar como brasa sob a neve.


IV. As Montanhas Grynn

Partiram ao amanhecer, guiados por Fen através de trilhas estreitas que serpenteavam pelas encostas rochosas das montanhas Grynn. O ar ficava mais fino e mais frio a cada hora de caminhada, e mesmo Kaen — acostumado ao frio como poucos — sentia o peso da altitude nos pulmões.

— Está mais frio aqui do que em qualquer lugar do seu reino? — perguntou Ryo, a respiração formando pequenas nuvens brancas no ar.

— Consideravelmente. Isso é… incomum. — Kaen parou, examinando o gelo que cobria as rochas ao redor, um gelo diferente do usual, com um brilho quase azul-escuro. — Isto é gelo primordial. A criatura está deixando um rastro à sua passagem.

— Isso quer dizer que estamos perto?

— Isso quer dizer que ela sabe que estamos vindo.

Fen, mais à frente, ergueu a mão em sinal de alerta, parando abruptamente.

— Ali — sussurrou, apontando para uma fenda entre duas formações rochosas cobertas de gelo. — Foi onde perdemos o último grupo.

Um silêncio pesado envolveu o pequeno grupo. Mesmo os guardas mais experientes, tanto do Norte quanto do Sul, mantinham as mãos próximas às armas, os olhos atentos a qualquer movimento entre as sombras geladas.

Foi Kaen quem sentiu primeiro — não com os olhos, mas com algo mais profundo, um instinto que reconhecia magia de gelo do mesmo jeito que reconhecia a própria respiração.

— Ela está aqui — murmurou, um segundo antes de o chão tremer.

A criatura emergiu da fenda rochosa num rugido que ecoou pelas montanhas inteiras — um Ur-gelo, exatamente como as lendas antigas descreviam: um corpo esculpido em gelo puro, quase transparente, na forma vagamente lupina, mas do tamanho de três cavalos empilhados, garras que reluziam como lâminas afiadas, olhos que brilhavam num azul tão intenso quanto as runas do ritual de união.

— Isso — disse Ryo, já com a espada desembainhada, os olhos fixos na criatura — é consideravelmente maior do que eu esperava.

— Fiquem atrás! — ordenou Kaen aos guardas e a Fen, avançando um passo à frente, as mãos já reunindo a magia de gelo que corria em seu sangue desde o nascimento.

O Ur-gelo atacou sem hesitação, uma garra cortando o ar em direção a Kaen, que desviou por pouco, retribuindo com uma lança de gelo conjurada das próprias mãos. A criatura rugiu, mais irritada do que ferida, e voltou à carga.

— Kaen! — gritou Ryo, correndo para o lado oposto da criatura, tentando dividir sua atenção.

Foi então que Kaen sentiu — não pelos próprios olhos, mas através do vínculo — um pico repentino de adrenalina que não era seu. Virou-se a tempo de ver o Ur-gelo voltar sua atenção total para Ryo, que, sem magia de gelo para se defender daquele tipo específico de ataque, contava apenas com reflexos humanos contra uma criatura de puro poder elemental.

Algo dentro de Kaen — algo que ele nunca tinha sentido antes, nem mesmo nos treinamentos mais intensos de sua vida — se acendeu com uma urgência que ultrapassava qualquer treinamento, qualquer disciplina aprendida.

— RYO!

A magia que saiu das mãos de Kaen naquele instante foi diferente de tudo que já havia conjurado antes — não o gelo controlado e preciso de sempre, mas algo mais bruto, mais visceral, movido por um medo que ele reconheceria, mais tarde, como muito mais do que preocupação protocolar por um aliado político.

O gelo se ergueu do chão como uma muralha entre Ryo e as garras da criatura, no último instante possível.

Ryo, momentaneamente protegido, aproveitou a brecha para golpear a pata dianteira do Ur-gelo com a espada, um golpe que, embora não fatal, foi suficiente para desequilibrar a criatura.

— Fen! — gritou Kaen. — O ponto fraco, nas lendas antigas, era sempre o núcleo, no centro do peito!

Fen, apesar do medo evidente no rosto, ergueu o arco, mirando com mãos trêmulas, mas firmes o suficiente.

A flecha cortou o ar exatamente no momento em que Ryo, aproveitando a distração criada pela muralha de gelo de Kaen, avançou e cravou a espada bem no centro do peito da criatura, no ponto exato indicado.

O Ur-gelo rugiu uma última vez — um som que pareceu sacudir as próprias montanhas — antes de se estilhaçar numa explosão de fragmentos de gelo que brilharam, por um instante, como estrelas caídas antes de se dissolverem completamente na neve ao redor.

Silêncio.

Apenas o vento, e a respiração pesada de todos os presentes, quebrava a quietude que se seguiu.


V. Depois da Batalha

Kaen correu até Ryo antes mesmo de perceber que estava se movendo, as mãos percorrendo os ombros dele, verificando ferimentos com uma urgência que não conseguia — nem queria, naquele momento — disfarçar.

— Você está bem? Ela te acertou? Deixe-me ver—

— Kaen. — Ryo segurou os pulsos dele, gentil, mas firme, interrompendo a verificação frenética. — Estou bem. Você me protegeu a tempo.

— Eu quase não consegui.

— Mas conseguiu.

Ficaram ali por um instante, mais próximos do que jamais tinham estado, a adrenalina da batalha ainda pulsando nas veias de ambos — e algo mais, algo que o vínculo tornava impossível de esconder: o alívio compartilhado, cru e genuíno, de saber que o outro estava a salvo.

— Você gritou meu nome — disse Ryo, baixinho, os olhos fixos nos de Kaen com uma intensidade nova.

— Era uma emergência.

— Você nunca me chamou pelo nome antes. Só “herdeiro do Sul” ou, nos seus momentos mais carinhosos, “você”.

Kaen sentiu o rosto esquentar, uma sensação estranha e desconhecida somada ao calor já familiar do vínculo.

— Isso não significa nada.

— Claro que não — concordou Ryo, mas o sorriso dele dizia exatamente o oposto, suave e sincero, sem nenhuma provocação por trás.

Fen aproximou-se, ainda processando o que tinha acabado de presenciar, o arco ainda tremendo levemente em suas mãos.

— Isso foi… — começou ela, sem encontrar palavras suficientes.

— Trabalho em equipe — completou Ryo, finalmente soltando os pulsos de Kaen, embora com uma relutância visível. — Vocês salvaram Korhaven, Fen. Sua flecha foi certeira.

— Tivemos sorte — disse Kaen, ainda tentando recompor a couraça de calma que a batalha — e o momento que se seguiu a ela — tinha abalado profundamente.

— Tivemos mais do que sorte — corrigiu Ryo, olhando para ele de um jeito que fazia Kaen sentir como se estivesse sendo lido por inteiro, cada camada de couraça vista através, apesar de tudo.

O caminho de volta a Korhaven foi silencioso, mas não tenso — um silêncio novo, diferente de todos os anteriores, carregado de algo que nenhum dos dois estava pronto para nomear em voz alta, mas que ambos sentiam crescer, inegável, a cada passo que davam de volta ao vilarejo que agora podia, enfim, respirar em paz.


VI. A Celebração

Korhaven recebeu-os como heróis. Houve uma pequena celebração improvisada na praça central, tochas acesas, música simples tocada em instrumentos rústicos, o vinho de raízes local circulando entre risadas de alívio genuíno.

Kaen, pouco acostumado a celebrações informais, manteve-se num canto mais afastado, observando — mas não com o distanciamento de sempre. Havia algo diferente nele agora, uma abertura recém-descoberta que a batalha, e o momento depois dela, tinham revelado.

Ryo encontrou-o ali, dois copos de vinho nas mãos, oferecendo um a Kaen com um sorriso.

— Achei que fosse fugir da própria celebração de novo.

— Estou apenas observando.

— Observando o quê, exatamente?

Kaen hesitou antes de responder, os olhos percorrendo a praça — as crianças rindo perto da fogueira, os adultos dançando desajeitados, a vida simples e genuína daquele povo que ele jurara proteger desde o berço, sem nunca ter visto de perto, até aquele dia.

— Isto — disse, finalmente. — O motivo real por trás de tudo o que fazemos no palácio. Fácil de esquecer, cercado de protocolo e formalidade.

Ryo observou-o em silêncio por um momento, algo suave e genuíno no olhar.

— Sabe, gelinho… para alguém que passou a vida inteira sendo treinado para não sentir, você sente bastante coisa.

— Talvez eu só tenha aprendido a esconder bem.

— Ou talvez — disse Ryo, aproximando-se um passo, a distância entre eles reduzindo-se de um jeito que já não parecia acidental — você só precisasse de alguém disposto a olhar de perto o suficiente para notar.

O calor do vínculo, que tinha sido uma presença constante e discreta desde o ritual, pareceu se intensificar naquele instante, quase como se reagisse à proximidade física entre os dois, à tensão que crescia no ar gelado da noite.

— Ryo.

— Kaen.

Nenhum dos dois completou o pensamento que pairava, evidente, no espaço entre eles. Mas, pela primeira vez desde o ritual, nenhum dos dois recuou também.

A música continuava tocando na praça, as risadas do povo de Korhaven ecoando ao redor, alheias ao momento suspenso entre os dois príncipes — um momento que, ambos sabiam, marcava o início de algo que nenhuma profecia, nenhum tratado político, e nenhuma couraça cuidadosamente construída ao longo de uma vida inteira, conseguiria conter por muito mais tempo.


Continua…

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