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Kaen não dormiu bem. Não pela primeira vez em sua vida — mas, pela primeira vez, o motivo não era a profecia, nem o peso da coroa que um dia herdaria, nem os conselheiros sussurrando sobre a guerra que quase voltara a acontecer três invernos atrás.
Era o calor.
Continuava lá, discreto, uma brasa baixa em algum lugar do peito, mesmo horas depois de ter se afastado de Ryo. Às vezes diminuía, quase sumindo por completo; outras vezes, sem razão aparente, ficava mais intenso, como se algo do outro lado daquele vínculo invisível estivesse… o quê? Rindo? Chorando? Kaen não sabia interpretar aquilo ainda, e a incerteza o incomodava mais do que qualquer coisa.
Levantou-se antes do amanhecer, como sempre. Foi até a janela, como sempre. E, pela primeira vez em anos, não conseguiu apreciar a neve caindo sobre os jardins, porque a mente insistia em voltar para os olhos cor de âmbar da noite anterior.
Isso é só o vínculo, disse a si mesmo. Não significa nada além disso.
Repetiu a frase como um mantra, sem perceber que repetir algo tantas vezes geralmente é sinal de que não se acredita nela por completo.
Do outro lado do palácio — porque a delegação do Sul permaneceria hospedada no Norte por mais uma semana, para os últimos ajustes protocolares do tratado — Ryo tinha o problema oposto.
Ele dormiu bem demais.
Acordou tarde, se espreguiçou como um gato satisfeito, e levou um bom minuto para entender por que se sentia tão… calmo. Era estranho, considerando que o dia anterior tinha sido, objetivamente, o mais aterrorizante de sua vida. Um ritual milenar, uma maldição, um príncipe de gelo com cara de quem nunca tinha sorrido de verdade.
E, ainda assim, havia dormido como não dormia havia meses.
Só quando se levantou e sentiu o frio fino ainda pulsando baixinho no peito — um frio que definitivamente não vinha do quarto bem aquecido que lhe reservaram — foi que entendeu.
Ah, pensou. Isso deve ser ele.
A ideia de que sua própria calma pudesse ser, na verdade, um resquício de Kaen dormindo tranquilo em algum lugar do castelo era estranha demais para processar antes do café da manhã. Ryo decidiu não processar. Decidiu, em vez disso, ir atrás de comida e fingir, por pelo menos uma refeição, que sua vida não tinha virado de cabeça para baixo da noite para o dia.
Encontraram-se de novo no meio da manhã, no Salão dos Convênios — uma sala menor, mais próxima da ala administrativa do palácio, onde o Grande Conselheiro do Norte e a Embaixadora do Sul discutiam os próximos passos do tratado.
— Como Vossas Altezas devem saber — começou o Conselheiro, as mãos cruzadas sobre a mesa de gelo polido —, o vínculo precisa ser testado. Precisamos confirmar que o feitiço funcionou como esperado antes de anunciar oficialmente aos dois reinos.
— Testado como? — perguntou Kaen, a voz cautelosa.
— Há um vilarejo na fronteira, Vossa Alteza. Korhaven. Um problema recente com criaturas do gelo selvagem tem preocupado os moradores. Seria uma boa oportunidade para observar como o vínculo se comporta sob… condições reais. E também mostrar aos dois povos que a aliança já está em ação.
Ryo, que até então parecia mais interessado nos doces dispostos sobre a mesa do que na conversa, ergueu uma sobrancelha.
— Estão nos mandando resolver um problema de monstros de gelo como teste de compatibilidade romântica?
— Não é um teste de compatibilidade romântica — disse Kaen, rápido demais, talvez rápido demais.
— Claro que não — concordou Ryo, com um sorriso que dizia exatamente o oposto.
A Embaixadora do Sul, uma mulher de meia-idade com o mesmo brilho determinado nos olhos que Ryo parecia ter herdado, interveio antes que a conversa saísse do controle.
— É uma missão simples. Vocês partem amanhã de manhã, resolvem o problema em Korhaven, e retornam em três dias. Uma boa forma de testar o vínculo longe dos olhos da corte.
Kaen sentiu o estômago se apertar — não de medo do vilarejo, nem das criaturas de gelo selvagem, que ele já havia enfrentado antes sozinho, sem problema algum. Era a ideia de passar três dias inteiros ao lado de Ryo, sem a proteção do protocolo formal da corte, sem conselheiros por perto para preencher os silêncios.
— Muito bem — disse, porque não havia realmente escolha a se fazer ali. — Partiremos amanhã.
Depois da reunião, Ryo o alcançou nos corredores, os passos ecoando contra o gelo polido do chão.
— Então — disse, ajustando o passo ao de Kaen, que continuava andando rápido demais para alguém que fingia não estar incomodado. — Três dias sozinhos numa vila de fronteira. Isso não te deixa nem um pouco nervoso?
— Por que deveria?
— Porque você anda mais rápido desde que saímos daquela sala.
Kaen parou. Droga.
— Não estou nervoso — disse, talvez com convicção demais para ser verdade. — Estou apenas… calculando a melhor rota até Korhaven.
— Claro que está.
Havia algo no tom de Ryo — não mais provocação pura, mas uma curiosidade genuína, quase gentil, escondida atrás da brincadeira.
— Posso te fazer uma pergunta séria? — perguntou Ryo, e a mudança de tom foi suficiente para que Kaen finalmente parasse de andar e o encarasse.
— Pode.
— Você acha que isso — ele gesticulou entre os dois, um gesto vago que ainda assim comunicava exatamente do que estava falando — é real? Ou você acha que estou fingindo sentir algo, só para… sei lá, ganhar vantagem política para o Sul?
A pergunta pegou Kaen de surpresa — não porque a ideia não tivesse cruzado sua mente, mas porque não esperava que Ryo a dissesse em voz alta, tão diretamente.
— A ideia passou pela minha cabeça — admitiu, porque mentir pareceria pior ainda.
Algo cruzou o rosto de Ryo — não mágoa exatamente, mas uma espécie de cansaço, como se aquela desconfiança fosse mais um peso entre tantos outros que ele já carregava por ser quem era: herdeiro de um reino que o Norte via, havia gerações, como inimigo por natureza.
— E você? — continuou Kaen, porque parecia justo perguntar de volta. — Acha que eu poderia estar fingindo?
— Honestamente? Não sei. Você é… difícil de ler. Mais do que qualquer pessoa que já conheci.
— Isso é treinamento.
— Eu imaginei que fosse.
Ficaram ali por um instante, no meio do corredor vazio, cada um medindo o outro, tentando decidir se a desconfiança que sentiam era racional — fruto de séculos de guerra entre seus povos — ou se era apenas medo disfarçado de cautela.
— Vou te propor algo — disse Ryo, finalmente. — Nos próximos três dias, em Korhaven, vamos deixar a desconfiança de lado. Não porque confiamos completamente um no outro ainda, mas porque, goste ou não, estamos presos um ao outro agora. E acho que é mais fácil sobreviver a isso como aliados do que como rivais fingindo educação.
Kaen considerou a proposta. Havia lógica nela — a mesma lógica fria e calculada que ele próprio teria usado, se a ideia tivesse vindo dele primeiro.
— Aliados — repetiu, como se testasse a palavra na própria boca.
— Por enquanto — concordou Ryo, estendendo a mão, um eco propositalmente irônico do gesto que os unira no dia anterior. — Depois, quem sabe.
Kaen olhou para a mão estendida por um instante mais longo do que o necessário.
Então apertou.
O calor voltou, imediato, familiar — e, dessa vez, Kaen não tentou ignorá-lo.
Na manhã seguinte, sob um céu ainda escuro e carregado de neve, os dois príncipes partiram para Korhaven, escoltados por um pequeno grupo de guardas de ambos os reinos — mais por protocolo do que por necessidade real, já que tanto Kaen quanto Ryo eram mais do que capazes de se defender sozinhos.
Kaen montava com a postura rígida de sempre, capa branca esvoaçando contra o vento gelado. Ryo, ao lado, parecia estranhamente à vontade sobre um cavalo emprestado, cantarolando alguma melodia do Sul que Kaen não reconhecia.
— Vai cantarolar o caminho inteiro? — perguntou Kaen, depois da terceira repetição da mesma melodia.
— Só se você continuar sendo mal-humorado o caminho inteiro.
— Não sou mal-humorado.
— Gelinho, você é a definição viva de mal-humorado.
Apesar de si mesmo — e essa era uma frase que Kaen começava a usar com frequência incômoda desde o dia anterior — sentiu o canto da boca se mover, quase um sorriso.
Korhaven ficava a dois dias de viagem, na fronteira exata entre os dois reinos — um vilarejo pequeno, moldado tanto pela influência gélida do Norte quanto pelo calor mais ameno do Sul, como se a própria geografia daquele lugar já soubesse, havia séculos, que gelo e fogo um dia precisariam aprender a coexistir.
Enquanto cavalgavam, o silêncio entre eles não era mais tão desconfortável quanto no dia anterior. Havia algo ali — não confiança completa, ainda não, mas o início frágil de uma trégua.
— Posso te perguntar uma coisa? — disse Ryo, depois de um longo trecho de silêncio companheiro.
— Já está perguntando.
— A profecia. A que te proíbe de amar. Você acredita nela de verdade?
Kaen levou um momento para responder, os olhos fixos na estrada nevada à frente.
— Acreditei a vida inteira. Foi a única coisa que me disseram sobre meu próprio destino desde que tinha idade suficiente para entender palavras.
— E agora?
— Agora — disse Kaen, e havia algo novo na voz dele, uma fissura pequena na couraça de sempre — agora não tenho tanta certeza de mais nada.
Ryo não respondeu de imediato. Apenas cavalgou ao lado dele, em silêncio, deixando aquela confissão pairar no ar frio entre os dois — nem leve o bastante para ser esquecida, nem pesada o bastante para assustar de vez.
Korhaven os esperava, na fronteira congelada entre dois mundos que, aos poucos, começavam a aprender a se tocar sem se destruir.
Continua…